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#Newsletter 55 – O financiamento sustentável na COP e os avanços da agenda nacional

O financiamento sustentável na COP e os avanços da agenda nacional

Nas últimas semanas, o volume de informações foi grande. Quando se trata de dias de COP, não tem muito para onde fugir; são turbilhões de relatórios, artigos, postagens e notícias a cansar o cérebro. Mas agora que a onda passou e entramos em um certo estado de calmaria, vale a pergunta: quais foram os avanços da agenda de financiamento climático para o Brasil? Sem rodeios, hoje nosso objetivo é falar de TFFF e de Taxonomia Sustentável, dois temas caros para nós. Abaixo te explicamos o porquê! Boa leitura.

TFFF  e o novo instrumento financeiro para florestas tropicais

Apesar dos desafios de captação e das incertezas levantadas logo nos primeiros dias de lançamento do fundo, é mais do que justo afirmar que o Tropical Forest Forever Fund possui uma estrutura inovadora com potencial de gerar impacto climático em larga escala pouco explorada até então.

O fundo tem como objetivo central garantir o pagamento de serviços ambientais para os grupos e instituições que trabalham pela manutenção de florestas tropicais ao redor do mundo. Sua lógica é clara: se desmatar gera algum tipo de retorno financeiro a curto prazo para quem o faz (a despeito de toda a perda natural e também socioeconômica a longo prazo), é preciso fazer com que a conservação traga retornos financeiros iguais ou maiores para os grupos locais. Por trás da estrutura, está a noção de gerar incentivo econômico pela manutenção da floresta.

De forma geral, o TFFF se divide em duas grandes estruturas. De um lado há o (1) braço financeiro (TFIF) e (2) do outro a chamada “facility”. Como explicado pelos documentos publicados pela Impacta, enquanto o primeiro é o responsável por gerir os recursos financeiros captados, o segundo realiza a supervisão de todo o sistema de remuneração relacionado às coberturas florestais, coordenando e monitorando as atividades de conservação florestal.

Diagrama simplificado da estrutura do TFFF. Imagem retirada do Concept Note 3.0 lançado pelo Governo Federal.

O pulo do gato, contudo, está na forma como o TFFF gera recurso para o pagamento dos serviços ambientais. Em outras palavras, o que faz o fundo inovador e também atuante em escala, é seu mecanismo de investimento estruturado via blended finance, o qual permite com que ele gere recursos para conservação ao passo em que promove retorno financeiro para os seus investidores. Para facilitar a compreensão do mecanismo, pense na estrutura como um fundo patrimonial (endowment). O dinheiro efetivamente repassado às atividades relacionadas é o retorno sobre o principal investido, o que ocorre, grosso modo, de forma semelhante (a grosso modo) no caso do TFF. Neste contexto da nova estrutura, contudo, a diferença reside no fato de que o Tropical Fund repassa o “spread” (diferença) entre o custo de capital da sua captação e o retorno financeiro dos seus investimentos realizados. Desta forma, o fundo consegue pagar seus credores (divididos em duas quotas — Sênior e Júnior) e utilizar o restante para financiar a conservação florestal.

Diagrama de funcionamento do TFFF. Os PFTs são os países elegíveis a receberem o recurso. Imagem retirada do Concept Note 3.0 lançado pelo Governo Federal.

TFFF e Taxonomia: sinalizações importantes

O lançamento do TFFF também foi acompanhado de outra importante divulgação pré COP 30: a Taxonomia Sustentável Nacional (TSB). Como apontado pela plataforma interativa da taxonomia lançada pela Impacta nas últimas semanas, o objetivo principal do documento da classificação é definir, de forma nítida, objetiva e com base científica, quais atividades, ativos ou categorias de projetos contribuem para objetivos climáticos, ambientais e/ou sociais, por meio de critérios específicos, além de mobilizar e redirecionar os fluxos de capitais para os investimentos necessários à transição para uma economia sustentável.

Juntos, portanto, ambos os acontecimentos representam avanços importantes dentro da agenda de finanças sustentáveis, principalmente, a nível nacional. De certa forma, pode-se dizer que ambos sinalizam maior maturidade na relação do sistema financeiro com as atividades climáticas, sendo essenciais por criarem lastro e por garantirem maior segurança para os agentes que desejam atuar na pauta.

Além do mais, visto que um dos grandes empecilhos para o destravamento do financiamento climático nacional é o perfil de atuação conservador e avesso a riscos dos investidores nacionais, assim como a falta de padronização da linguagem e categorização do mercado climático, pode-se dizer que ambos representam os maiores avanços recentes na pauta para o país. Enquanto o primeiro é essencial para sinalizar para o mercado de capital que novos mecanismos financeiros podem ser estruturados alinhando retorno financeiro e impacto socioambiental, o segundo estabelece todo um ecossistema padronizado e, consequentemente, mais transparente para o surgimento de novos ativos. Em um contexto onde os ativos que promovem menor pegada carbônica são menos incentivados naturalmente pela dinâmica de mercado, tanto a taxonomia, quanto o surgimento do TFFF merecem destaque. Enquanto o primeiro prepara o terreno, o segundo aponta o caminho.

Evolução dos rendimentos previstos pelo TFIF ao longo dos 40 anos futuros. Imagem retirada do Concept Note 3.0 lançado pelo Governo Federal.

Os passos que virão

O fim da COP 30 trouxe um sabor amargo. A não inclusão no documento final de uma trilha para a transição energética frustrou uma gama de representantes, independente da pauta ter sido levantada repentinamente fora da agenda oficial. A pouca receptividade do TFFF também não passou desapercebida. O fundo, até o momento, está longe de arrecadar os US$ 25 bilhões almejados no seu planejamento e as incertezas em relação ao seu funcionamento e possíveis riscos, têm sido destacados como desafios ao funcionamento do projeto. A sensação de estarmos fazendo pouco, contudo, merece ser ponderada com os avanços em plenária e também com as conquistas nacionais. Como falamos, a TSB e o próprio holofote ao TFFF são jogadas essenciais para o fomento da pauta, em especial em um mercado que ainda entende muito pouco do tema. Isso é suficiente para frear qualquer avanço das mudanças climáticas? Não, e isso é importante de se dizer. Entretanto, esses movimentos de vitória indicam que a agenda climática segue avançando terreno a despeito das pressões geopolíticas sofridas recentemente. Há cada vez mais espaço para amadurecimento do debate nos passos que virão.

Vale se aprofundar

  1. Boticário e as finanças verdes: o grupo de cosméticos lançou uma captação de R$ 2 bilhões em dívida ESG ligadas a metas de sustentabilidade. O mecanismo será dividido em 3 emissões diferentes, sendo a última associada ao programa Eco Invest.
  2. Óleo e Gás e a reputação brasileira: em relatório divulgado pela organização SkyTruth, foram identificados ao menos 179 possíveis vazamentos de óleo na costa brasileira associados a indústria de óleo e gás. Os dados foram coletados via satélite e buscam contrapor a decisão de exploração na Margem Equatorial.
  3. Sem explicações plausíveis: a aprovação do Marco do setor elétrico no final de novembro carregou consigo a extensão da compra de energia originada de usinas a carvão até o final de 2040. O prazo para esse mecanismo havia sido expirado em 2022. A mudança tente a deixar a conta de luz mais cara, além da fonte ser a mais poluente dentre as opções disponíveis.

Posicionamento💬

Não é doação, mas uma iniciativa que opera com lógica de mercado, alavancando recursos privados a partir de investimentos públicos. Para cada dólar aportado pelos países, espera-se mobilizar cerca de quatro dólares do setor privado, criando um fundo fiduciário permanente. É uma nova forma de financiar a conservação, com responsabilidade compartilhada e visão de futuro.

Marina Silva em notícia publicada pelo portal IstoÉ Dinheiro.

Sugestão da casa 📝

🌱Para os leitores e leitoras de plantão: essa semana gostaríamos de indicar o próprio sumário executivo do TFFF lançado na COP 30, assim como o documento completo em inglês para maiores aprofundamentos. Vale a pena também analisar os materiais disponibilizados pela Impacta!

🤖Indicação Tech: para aqueles que querem mergulhar no mundo da Taxonomia Sustentável, vale a interação com a nova ferramenta da Impacta lançada em novembro!

Equipe Impacta, 2025.

Todas as notícias vinculadas possuem a finalidade de sintetizar as informações para o(a) leitor(a). Para mais informações, sugerimos aprofundar nos links anexados. Em caso de algum erro, fique à vontade para mandar mensagem na página da empresa.

Edição 55 – Texto e edição: Lucas Dos Santos Formigoni; Supervisão e validação: Felipe Vignoli e Felipe Lima Meneguin.