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Da pólvora às renováveis: por que a China?
A China por si só é um país impressionante. Seja pela sua cultura milenar, seja pela vastidão da região, é relativamente difícil não cair em interesse pelas histórias e pelos avanços recentes do país. O avanço econômico talvez seja o maior retrato desse movimento. Em um país com mais de 1,4 bilhão de habitantes e um sistema político planificado, foram registrados espantosos 14,1% de crescimento do produto interno bruto em 2007. Com o maior crescimento, contudo, maior o número de emissões. No meio deste imbróglio e a partir do avanço ambiental dos últimos anos, o gigante asiático mudou de rota e começou a se debruçar sobre as oportunidades na economia verde e, para o bem ou para o mal, entendeu que existem ganhos substanciais na agenda.
As assombrosas emissões
É difícil começar essa edição sem trazer a realidade de que a China é o maior emissor, em termos brutos, de gases do efeito estufa do mundo. Em outras palavras, atualmente a economia chinesa é responsável por 31% de todas as emissões globais de CO2, algo próximo de 11,9 bilhões de toneladas anuais de gás carbônico despejadas na atmosfera. O número é mais do que o dobro do segundo colocado, o Estados Unidos, responsável por aproximadamente 12% das emissões e quase 10 vezes mais do que todas as emissões da América do Sul, que somam 2,9% do total global.

Parte significativa dessas emissões tem origem na queima de combustíveis fósseis, em especial, o carvão. Ao todo, estima-se que até 70% de toda a emissão esteja diretamente relacionada à queima do mineral, que continua a ser um combustível incentivado dentro da economia local. Neste contexto, assim como na maioria do globo, a geração de energia é tida como a grande responsável pelas emissões chinesas, fenômeno que dificulta o processo de transição climática pela sua capilaridade e importância inerente aos processos produtivos. Em um país com taxas de crescimento interno expressivas, portanto, é notável a preocupação frente às futuras emissões: qualquer debate climático precisa ter a China posta à mesa para debate. Sem o gigante asiático não existe possibilidade de desenvolvimento sustentável.

O outro lado da moeda
Existem alguns elementos imprescindíveis para o desenvolvimento sustentável de uma economia. Primeiro, é importante o fator (1) da inovação. Enfrentar as mudanças climáticas implica em elaborar novas soluções de mitigação e adaptação dos novos efeitos ambientais, o que significa a promoção de ecossistemas inovadores e hubs de tecnologia. O segundo fator é de (2) planejamento político. Neste campo, a coordenação entre os atores e meios eficazes para execução de programas e políticas é primordial, algo que depende diretamente do poder governamental. Por fim, mas não menos importante, (3) é necessário capital, pois sem dinheiro a coisa não roda.
No meio destes critérios, não é surpresa para ninguém que a China tem todos os 3 elementos imprescindíveis em abundância. Assim, se o país possui um sistema político fechado mas igualmente bem coordenado, também é verdade que o grande volume de capital para projetos climáticos e as inovações locais têm exercido grande papel na virada sustentável. Esses sintomas podem ser exemplificados, respectivamente, pelo fluxo de US$ 659 bilhões em 2023 para atividades econômicas relacionadas ao clima e pelo aumento de eficiência promovido pelas novas tecnologias nas cadeias produtivas locais. A China, atualmente, figura-se como maior investidor global em clima e também como um exemplo de coordenação de elementos inovadores ao processo produtivo local; tudo isso em larga escala.

Talvez o grande exemplo desse processo de transformação que a China atualmente cruza esteja no setor de energia. O investimento em renováveis em 2024 alcançou o mesmo montante do que todo o investimento em energia feito nos EUA para a mesma data. Esse resultado é o símbolo de um país que domina quase 50% de todo o mercado mundial na temática energética e que tem sido o grande responsável pelo barateamento de soluções tecnológicas que vão desde o segmento de refletores solares até o segmento de baterias e outros sistemas de armazenamento.
O avanço, inclusive, vai além dos desenvolvimentos encontrados na economia real, estendendo-se também para o campo da economia administrativa e estratégica. O comprometimento do governo chinês em formalizar um sistema de reportes financeiro-climáticos até 2030 e que tenha base no ISSB é um sinal desse novo movimento, que pretende, aos poucos, consolidar o país na vanguarda das ações climáticas. O maior emissor do mundo, felizmente, também enxerga possibilidades na agenda climática e esse é um motivo e tanto para começarmos a analisar as tendências que surgem por lá.
Os ventos do norte não movem moinhos
A mudança de rumo promovida pela nova gestão norte-americana e as mudanças propostas pelo pacote Omnibus na União Europeia foram dois fenômenos que chacoalharam o ecossistema climático. Embora seja temerário apontar que os núcleos históricos de vanguarda mundial abandonaram a política climática, é factível argumentar uma mudança de eixo geopolítico dentro da agenda ambiental. Nesta linha, o movimento pelo desenvolvimento verde não se enfraqueceu, mas sim passou a apresentar novas lideranças políticas em uma ordem mundial que vem se transformando. Sorte daqueles que conseguirão antecipar esse movimento que tem sido cada vez mais claro. Os ventos do norte não movem mais os moinhos; ao menos não mais sozinhos. Procuremos o oriente e (por que não?) nossas referências internas?
Vale se aprofundar
- Vidas Secas: em recente pesquisa realizada por um grupo de pesquisadores da USP, foi identificado que o desmatamento na floresta Amazônica é responsável por até 74% da queda nas chuvas durante os períodos de secas dos últimos 35 anos. O estudo, em inglês “How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest”, foi publicado na Nature Communications e compartilhado pela Folha de São Paulo a partir da reportagem da Luciana Constantino.
- Avanço renovável alemão: a Alemanha conseguiu antecipar o cumprimento da meta de redução do uso de carvão para geração de energia, antes prevista para 2028. O nível de redução foi superado em aproximadamente 10 pontos percentuais.
- Os problemas da COP 30: os problemas de infraestrutura de Belém para a COP 30 seguem no radar. Em reportagem publicada por Vinicius Sassine na Folha de São Paulo, grupos locais acusam a organização de demoliar moradias e deslocar famílias para a realização dos empreendimentos.
- O segundo leilão do Ecoinvest: a realização do segundo leilão da Ecoinvest foi marcada pela participação dos bancos públicos. A notícia, publicada pelo Sérgio Teixeira Jr. no Reset, destacou que as instituições ficaram com quase 60% do dinheiro concedido a juro subsidiado.
Posicionamento do especialista 💬
A China “demonstrou, de maneira muito convincente, que o combate à mudança do clima é uma oportunidade, não um sacrifício da economia”.
André Corrêa do Lago em matéria para a Folha de São Paulo.
Sugestão da casa 📝
🌱Para os leitores e leitoras de plantão: vale a leitura do rápido artigo do Fórum Econômico Mundial que despertou o tema da edição – How China is helping power the world’s green transition.
📝Dupla licença poética: para finalizar a semana bem, dois elementos poéticos ajudaram na escrita do texto. O primeiro é a música do Secos e Molhados “Sangue Latino”, que foi responsável pelo título da última seção no texto principal. Além do mais, o livro “Vidas Secas” de Graciliano Ramos serviu para nomear a primeira notícia da categoria Vale Se Aprofundar. Ambos são clássicos, portanto, merecem o interesse! Bom final de semana.
Equipe Impacta, 2025.
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Edição 51 – Texto e edição: Lucas Dos Santos Formigoni; Supervisão e validação: Felipe Vignoli e Felipe Lima Meneguin.





